Letrux fala com a AMARO sobre moda, amor e climão

 
 

Se você curte a cena musical brasileira, com certeza já foi impactada pelo som da carioca Letícia Novais, agora conhecida (e reconhecida) como Letrux. Ao lado do então parceiro Lucas Vasconcellos, ela dividiu os holofotes e os microfones do duo Letuce. Desde ano passado lançou-se em carreira solo e agora colhe os louros de seu primeiro CD, batizado de Letrux Em Noite de Climão. Tem ganhado ainda mais projeção se apresentando em lugares como o Auditório Ibirapuera, a Virada Cultural e o MECA, que acontece no final de junho em Inhotim.

“A Letícia é mais tímida, tem seus momentos de recolhimento e inibição. Já a Letrux é outra força, outra visão, outro fogo que me baixa”, conta ela em entrevista exclusiva para a AMARO. “Nossa geração é muito misturada e sofre influência de estilos diferentes - rock, disco, música eletrônica, MPB… Acredito que meu som é contemporâneo, oscilando entre momentos mais calmos e outros mais dançantes. No entanto tento não me definir - definição é limitação, então gosto de pensar que estou por aí passeando entre muitos lugares.”

Estrela do evento que a AMARO arma nesta terça-feira, dia 29 de maio, para o lançamento de campanha de Dia dos Namorados e transformação inédita do nosso Guide Shop na Rua Oscar Freire, Letrux dá mais detalhes sobre seu momento estelar abaixo:

 
 
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Foto Natalia Arjones

 
 

Conta pra gente sobre sua trajetória profissional. Como você se tornou artista?

Desde criança sempre fui maluquinha e já tinha alma de artista. Ninguém da minha família era do ramo, então no começo esse talento ficava mais camuflado. Conforme fui crescendo aquilo se tornou muito real. Cheguei a fazer faculdade de letras, mas era um ambiente muito acadêmico e esquisito. Minha mãe, uma professora de francês de alma muito sensível, acabou me matriculando no teatro e foi lá que eu descobri tudo, incluindo a música. No final da aula ficávamos em uma rodinha de violão, onde eu cantava as músicas bobas que na época eu compunha e que faziam sentido para mim. Aos 25 anos conheci o Lucas Vasconcellos e foi com ele que criei o Letuce, projeto lindo que durou quase 10 anos. Gravamos dois discos estando juntos [como um casal] e outro já separados, que se chamava Estilhaça. Já Noite de Climão sou eu solteira e apaixonada. As pessoas acham muito que esse disco, por levar climão no nome, remete ao término. Mas não tem nada a ver - climão é o que estamos vivendo no mundo hoje, esse momento climático e complicado.
 

Como você define seu estilo musical?

É muito difícil se definir, né? Acho que nossa geração é muito misturada e sofre influência de estilos diferentes - rock, disco, música eletrônica, MPB… Acredito que meu som é contemporâneo, oscilando entre momentos mais calmos e outros mais dançantes. No entanto tento não me definir - definição é limitação, então gosto de pensar que estou por aí passeando entre muitos lugares. Com certeza é uma música dançante e divertida. Eu mesma, ouvindo esse CD, já ri e já chorei.

 

Por que o codinome Letrux?

Gosto do meu nome, mas acho ele muito sério. Letícia Novais parece carregar o peso de uma responsabilidade, enquanto um apelido é algo mais leve, mais calmo e mais suave. Meu apelido era Letuce mas, como acabou virando o nome da banda, meus amigos pararam de me chamar assim. Eu já usava Letrux no meu Whatsapp há tempos e, enquanto procurava por sobrenomes antigos da minha família e quebrava a cabeça para pensar em um nome mais artístico, percebi que ele sempre esteve lá minha frente.
 

 
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Foto Antonio Brasiliano

 
 

Você tem uma agenda intensa de shows em 2018 - Auditório Ibirapuera, Virada Cultural, MECA e Festival Popload. Ufa! Como você se sente tão disputada?

Uau! Fico muito feliz de perceber que algo que passa pela minha sensibilidade atinge a sensibilidade de outras pessoas. É uma roda que gira com muita beleza e emoção! Algo que você fez na sua vida se tornar trilha sonora da vida dos outros é impressionante. A música faz parte do nosso dia a dia, ela está em basicamente todos os lugares. Você pode contar tantas coisas em uma mesma canção, falar sobre alegrias e tristezas, lembrar alguém que já se foi, relembrar uma viagem, um momento de paixão… Enfim, é realmente uma honra!

 

Na sua opinião, o que mais mudou do Letuce para a Letrux?

Na época do Letuce eu dividia tudo com o Lucas, agora tomei as rédeas da situação por completo. Eu tenho outros produtores, mas a palavra final é minha. A poética das músicas de alguma maneira mais popular, talvez as letras do Letuce fossem mais complexas e agora eu consegui chegar em um lugar mais direto.
 

 
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Foto Chun

 
 

Quem são suas principais referências na cena musical?

São muitas! Graças aos deuses sou atravessada por muitos encontros incríveis com mulheres diferentes de mim, de outra pegada. Posso citar algumas que amo: Fever Ray, Karina Buhr, Rita Lee, Maria Bethânia, Luedji Lujna, Liniker...

 

Li uma entrevista recente sua onde você diz que sua versão Letrux é ‘mais lasciva, mais destemida, mais insana’. Da onde vem essa persona?

A Letícia é mais tímida, tenho meus momentos de recolhimento e inibição apesar de ser expansiva. No palco, quando subo pra fazer um show, é uma outra força, outra visão, outro fogo que me baixa. Talvez no dia a dia eu não seja tão assim. É incrível brincar com isso e resgatar essa persona atriz que eu tenho.

 

Você considera seu disco feminista?

Considero meu disco ultrafeminino. Primeiro porque ele é cantado por uma mulher, depois porque tive a preocupação de não ser uma narradora que só canta para homens. Que Estrago, por exemplo, é uma música totalmente lésbica. Fiz questão de pensar no feminino, já que a gente tem essa mania de pensar no masculino e às vezes deixar a narrativa meio voltada para esse olhar. Não é nada panfletário, mas é um disco feito por uma mulher falando de questões femininas.

 
 
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Foto Filipe Braga

 
 

Em um mundo tão doido como o nosso hoje em dia, você se sente responsável por passar uma mensagem?

Se eu não fosse artista estaria lutando pelas mesmas causas que luto hoje, a favor das minorias. Tenho uma guitarrista trans e desde criança nunca pude compreender porque alguém se mete no amor e no tesão alheio. Aproveito a visibilidade para potencializar minha voz.

 

Como você enxerga a moda dentro do seu trabalho? Qual a importância dos figurinos na hora do show?

Eles são super importantes! Agora tenho ajuda de um stylist, mas antigamente eu que decidia tudo sozinha. Para esse disco, queria muito o vermelho como protagonista. É uma cor que representa drama, fogo e dor - esse projeto é um apaixonado e dramático. Além de ficar intenso e sensual, a cor fica super bonita no palco. Além disso, sempre gostei de moda e de me divertir com ela. Não uso tudo que está em alta, mas acredito muito que devemos experimentar e criar com ela!

 

Qual a diferença no guarda-roupa da Letícia para a Letrux?

Minha mãe é bem elegante enquanto meu pai é um figuraça, bem colorido. Herdei um pouco dos dois, sou bem uma misturinha. Costumo dizer que sou uma elegante estabanada - sou bem alta, por isso as roupas caem de uma maneira elegante em mim, mas no segundo seguinte sou do tipo que tropeça e cai. Não sou de roupas muito curtas, gosto de vestidos longos e calças retas que me deixam mais longilínea. Também amo um decote nas costas! Com 36 anos a gente tem mais maturidade para saber ressaltar o que temos de bonito, já nos conhecemos mais. Acredito que a roupa tem que trazer para nós uma sensação de bem-estar, autoconfiança e felicidade - seja ela a peça que for.